Perturbações do olfacto e do paladar

Dado que as perturbações do olfacto e do paladar raramente constituem uma ameaça à vida da pessoa, pode acontecer que não recebam a atenção médica adequada. No entanto, estas perturbações podem chegar a ser frustrantes, uma vez que afectam as faculdades da pessoa para desfrutar da comida, da bebida e dos aromas agradáveis. Também podem interferir na capacidade de nos apercebermos de substâncias químicas e de gases potencialmente nocivos, o que poderá ter consequências graves. Em todo o caso, uma perturbação que deteriore os sentidos do olfacto e do paladar pode ser grave.

O olfacto e o paladar estão estreitamente relacionados. As papilas gustativas da língua identificam o paladar, e o nervo olfactivo identifica os odores. Ambas as sensações são transmitidas ao cérebro, que combina a informação para reconhecer e apreciar os sabores. Enquanto alguns sabores podem ser reconhecidos sem que intervenha o olfacto (como o sabor salgado, o amargo, o doce e o ácido), outros sabores mais complexos (como o da framboesa, por exemplo) requerem ambos os sentidos, olfacto e paladar, para os reconhecer.

A perda ou a redução do sentido do olfacto (anosmia) é a anomalia mais frequente do olfacto e do paladar. No início, as pessoas costumam aperceber-se de uma alteração do sentido do olfacto ao sentirem que os alimentos são insípidos, dado que a distinção entre um sabor e outro se baseia em grande medida no olfacto.

O sentido do olfacto pode ser afectado por certas alterações no nariz, nos nervos que vão do nariz ao cérebro ou no próprio cérebro. Por exemplo, quando as fossas nasais estão irritadas por um resfriado comum, o sentido do olfacto pode diminuir por os odores não alcançarem os receptores do olfacto. Uma vez que o sentido do olfacto está associado ao do paladar, as pessoas constipadas costumam achar que os alimentos não sabem bem. As células encarregadas do olfacto podem ser temporariamente lesadas pelo vírus da gripe; algumas pessoas não podem nem cheirar nem saborear durante vários dias ou semanas após um episódio de gripe.

Às vezes, a perda do olfacto ou do paladar dura semanas ou chega mesmo a ser permanente. As infecções graves dos seios nasais ou a radioterapia utilizada para o cancro podem afectar as células do olfacto ou destruí-las. No entanto, o traumatismo craniano, causado frequentemente por acidentes de automóvel, constitui a causa mais frequente da perda do olfacto. Como consequência desse traumatismo, as fibras do nervo olfactivo (o nervo que contém os receptores do olfacto) são seccionadas ao nível da placa cribriforme do etmóide (o osso na base do crânio que separa o espaço intracraniano da cavidade nasal). Em ocasiões raras, uma pessoa pode nascer sem o sentido do olfacto.

O aumento da sensibilidade aos odores (hiperosmia) é muito menos frequente do que a anosmia. O sentido do olfacto distorcido, que faz com que os odores inócuos cheirem mal (disosmia), pode ser consequência de uma infecção dos seios perinasais ou de uma lesão parcial dos nervos olfactivos. A disosmia pode dever-se também a uma má higiene dentária que produz infecções na boca de odor desagradável, o qual será detectado pelo nariz. Às vezes as pessoas depressivas desenvolvem disosmia. Algumas pessoas que sofrem de epilepsia, originada na parte do cérebro que percebe os odores (o centro olfactivo), experimentam sensações de cheiros desagradáveis (alucinações olfactivas) que são muito fortes e de curta duração. (Ver secção 6, capítulo 73) Estes cheiros desagradáveis fazem parte da epilepsia; não são uma má interpretação de um odor.
Uma redução ou perda do sentido do gosto (ageusia) costuma ser consequência de perturbações que afectam a língua. Alguns exemplos são uma boca muito seca, o tabagismo intenso (especialmente fumar cachimbo), a radioterapia da cabeça e do pescoço e os efeitos secundários de fármacos como a vincristina (um medicamento anticanceroso) ou a amitriptilina (um antidepressivo). A distorção do paladar (disgeusia) pode ser consequência dos mesmos factores que incidem na perda do paladar. As queimaduras da língua podem destruir temporariamente as papilas gustativas e a paralisia de Bell (paralisia de um lado da face causada por uma disfunção do nervo facial) (Ver secção 6, capítulo 71) pode ocasionar a perda do sentido do gosto num lado da língua. A disgeusia também pode ser um sintoma de depressão.

Como se apreendem os sabores

O sentido do gosto e do olfacto trabalham conjuntamente para que se possa reconhecer e apreciar os sabores. O centro do olfacto e do gosto no cérebro combina a informação sensorial da língua e do nariz. Milhares de pequenas papilas gustativas cobrem grande parte da superfície da língua. Quando a comida entra na boca, estimula os receptores das papilas gustativas. Estas, por sua vez, enviam impulsos nervosos para o centro do olfacto e do gosto do cérebro, que os interpreta como sabor. As papilas gustativas na ponta da língua detectam o sabor doce, as dos lados, o salgado e o ácido, e as da parte de trás, o amargo. As combinações destes 4 sabores básicos produzem uma ampla gama de sabores. Uma área pequena na membrana mucosa que reveste o nariz (o epitélio olfactivo) contém terminações nervosas que detectam o odor (nervos olfactivos). Quando as moléculas transportadas pelo ar entram na fossa nasal, estimulam minúsculas projecções semelhantes a pestanas (cílios) nas células nervosas. Esta estimulação envia impulsos nervosos através de umas zonas volumosas que se encontram no final dos nervos (bulbos olfactivos), ao longo do nervo olfactivo, em direcção ao centro do olfacto e do gosto do cérebro. O centro interpreta estes impulsos como um odor específico. Através deste processo distinguem-se milhares de odores diferentes. O cérebro necessita tanto do sentido do gosto como do do olfacto para distinguir a maioria dos odores. Por exemplo, para distinguir o sabor de um bombom, o cérebro percebe um sabor doce através das papilas gustativas e um aroma agradável a chocolate através do nariz.  

Diagnóstico

Os médicos podem fazer provas de olfacto utilizando fragrâncias de óleos, de detergentes e de alimentos (café ou cravo, por exemplo). O gosto pode verificar-se utilizando substâncias doces (açúcar), ácidas (sumo de limão), salgadas (sal) e amargas (aspirina, quinina, aloés). O médico ou o odontologista também passam revista à boca para detectar infecções ou secura (salivação escassa). Em ocasiões concretas requerem-se estudos de imagem do cérebro através de uma tomografia axial computadorizada (TAC) ou de uma ressonância magnética (RM).

Tratamento

Em função da causa da perturbação do paladar, o médico recomendará a mudança ou a supressão de um determinado medicamento, a toma de rebuçados para manter a boca húmida ou simplesmente esperar várias semanas para ver se o problema diminui. Os suplementos de zinco, que se podem adquirir sem prescrição médica, julga-se que aceleram a recuperação, especialmente nas alterações do paladar posteriores a um episódio de gripe. No entanto, os seus efeitos não foram confirmados cientificamente.