Infecção pelo vírus da imunodeficiência humana

A infecção pelo vírus da imunodeficiência humana é um afecção viral que, progressivamente, destrói os glóbulos brancos e provoca a síndroma de imunodeficiência adquirida (SIDA).

O vírus da imunodeficiência humana (VIH) finalmente provoca a deterioração progressiva do sistema imunitário do corpo, permitindo o desenvolvimento de infecções oportunistas (não habituais) e, sobretudo em adultos, de certos cancros. A SIDA é a fase avançada da infecção por VIH e é, actualmente, uma doença mortal.

A infecção pelo VIH e pela SIDA afecta principalmente adultos jovens. (Ver secção 17, capítulo 187) Só aproximadamente 2 % das pessoas infectadas pelo VIH em alguns países industrializados são crianças ou adolescentes. No entanto, a quantidade de adultos jovens com infecção pelo VIH que, presumivelmente, adquiriram a infecção durante a adolescência está a aumentar rapidamente.

Causas

A infecção pelo VIH é causada pelo vírus VIH-1 ou, menos frequentemente, por um vírus muito semelhante chamado VIH-2. (Ver secção 17, capítulo 187) As crianças pequenas com infecção pelo VIH quase sempre adquiriram o vírus da sua mãe antes ou durante o nascimento, embora mais de dois terços dos filhos de mulheres infectadas pelo VIH não tenham sido infectados. Os bebés podem adquirir a infecção da sua mãe depois do nascimento porque o vírus pode ser transmitido através do leite.

A transmissão do vírus de mãe para filho não é a única forma de as crianças poderem ser infectadas. Embora rara, outra forma de infecção é o contacto por meio do abuso sexual. Finalmente, uma criança pode ter sido infectada através de uma transfusão de sangue se esta tiver sido feita antes de 1985. Os homens jovens com hemofilia (Ver secção 14, capítulo 155) que receberam concentrados de factores coagulantes antes de meados da década de 80 podem ter sido infectados se os produtos do sangue estavam contaminados pelo VIH. Desde 1985, todo o sangue doado foi controlado para verificar a presença do anticorpo contra o VIH e conseguiram-se grandes progressos na segurança dos concentrados de factores coagulantes. Hoje em dia, é raro contrair uma infecção pelo VIH através de uma transfusão de sangue ou por produtos derivados.

Nos adolescentes, os meios de infecção são os mesmos que nos adultos: as relações sexuais, o facto de partilhar agulhas infectadas ao injectar drogas e, com menor frequência, as transfusões de sangue anteriores a 1985. Tanto as relações homossexuais como as heterossexuais podem transmitir o vírus. A actividade homossexual masculina é responsável por 33 % dos casos recentes pelo VIH em homens adolescentes e a actividade heterossexual representa aproximadamente 54 % dos casos recentes detectados entre mulheres adolescentes. O facto de partilhar agulhas infectadas é responsável por aproximadamente 11 % dos casos recentes detectados entre os adolescentes.

O vírus não se transmite através dos alimentos, da água, dos artigos do lar ou do contacto social em casa, no local de trabalho ou na escola. Em casos muito raros, o VIH foi transmitido pelo simples contacto da pele com o sangue infectado. Em quase todos os casos a pele superficial tinha erosões, úlceras ou feridas abertas ou então estavam implícitos outros factores. Embora a saliva possa conter o vírus, a transmissão pelo beijo ou mordedura nunca foi confirmada.

Sintomas e complicações

A infecção antes, durante ou imediatamente após o nascimento não pode ser evidente de forma imediata. Entre 10 % e 20 % dos problemas infantis começam durante o primeiro ou o segundo ano de vida. Nos restantes 80 % ou 90 %, os problemas podem aparecer anos depois. Em mais de metade das crianças infectadas com o VIH o diagnóstico da SIDA faz-se aproximadamente por volta dos 3 anos de idade. Se a doença começar depois da infância, os períodos de doença podem alternar com períodos de saúde relativamente normal. A infecção pelo VIH contraída durante a adolescência costuma permanecer inactiva ou provoca muito poucos sintomas durante meses ou até anos. Este é muito semelhante ao curso da infecção pelo VIH quando se adquire na idade adulta.

À medida que o sistema imunológico da criança se deteriora, pode surgir uma variedade de sintomas e de complicações. Aproximadamente um terço das crianças infectadas com o VIH desenvolve inflamação pulmonar (pneumonite intersticial linfocitária), normalmente no decurso dos primeiros anos de vida. Conforme a gravidade da lesão pulmonar, pode aparecer tosse e inflamação das pontas dos dedos (dedos em baqueta de tambor).

A pneumonia provocada pelo microrganismo Pneumocystis carinii é uma ameaça grave para as crianças com SIDA. As crianças que nascem infectadas com o VIH normalmente têm, pelo menos, uma crise de pneumonia por pneumociste nos primeiros 15 meses de vida. Mais de metade das crianças infectadas pelo VIH contrai pneumonia em determinado momento. A pneumonia por pneumociste é uma causa principal de morte em crianças e adultos com SIDA.

Num número significativo de crianças infectadas pelo VIH, o dano cerebral progressivo evita ou atrasa aspectos-chave do desenvolvimento, como andar e falar. Estas crianças também podem ter uma inteligência deficiente e a cabeça pequena em relação ao corpo. Até 20 % das crianças infectadas perdem progressivamente as suas aptidões sociais e da linguagem, além do controlo muscular. Podem sofrer de paralisia de uma parte do corpo, instabilidade ou então rigidez muscular.

Algumas crianças desenvolvem inflamação hepática (hepatite) e lesão cardíaca (insuficiência cardíaca) ou renal (insuficiência renal). Os cancros são raros nas crianças com SIDA, mas podem efectivamente surgir o linfoma não hodgkiniano e o linfoma cerebral. O sarcoma de Kaposi, um cancro que afecta a pele e os órgãos internos, é extremamente raro nas crianças.

Diagnóstico

Suspeita-se de infecção pelo VIH naquelas crianças cujas mães estão infectadas ou em crianças com sintomas de infecção pelo VIH ou com problemas do sistema imunitário. No recém-nascido, a análise ao sangue standard que determina a presença de anticorpos contra o VIH não tem valor diagnóstico, porque o sangue quase sempre contém anticorpos perante o VIH se a mãe estiver infectada por este vírus (mesmo quando o mesmo não o esteja). A maioria dos bebés retém sistematicamente estes anticorpos maternos durante 12 ou 15 meses e até mais, mas se os bebés não estiverem infectados pelo VIH, estes anticorpos finalmente desaparecem do sangue. Por conseguinte, para diagnosticar definitivamente a infecção pelo VIH em crianças com menos de 18 meses de idade é necessário fazer análises ao sangue especiais (uma análise mediante reacção em cadeia da polimerasa ou uma cultura do VIH). A realização repetida de tais análises permite diagnosticar a infecção pelo VIH em muitos, se não todos, destes bebés infectados por este vírus antes dos 6 meses de idade.

As análises ao sangue standard de anticorpos contra o VIH servem para diagnosticar a infecção por este vírus em crianças com mais de 18 meses e em adolescentes.

Tratamento e prognóstico

Cada vez se utiliza um maior número de medicamentos para tratar a infecção pelo VIH em adultos e adolescentes. (Ver secção 17, capítulo 187) Muitos destes medicamentos, embora nem todos, têm sido testados em crianças e a sua utilidade já foi demonstrada. Muitos especialistas crêem que as combinações de medicamentos podem ser mais úteis do que um medicamente único. Os fármacos usados em crianças são a zidovudina (AZT), a didanosina (ddI), a estavudina (d4T), a lamivudina (3TC) e a zalcitabina (ddC). Alguns fármacos usados só em adultos começam a ser testados também em crianças. Estes incluem o saquinavir, o ritonavir e o indinavir. Alguns fármacos, como a nevirapina e a delavirdina, estão a ser testados tanto em adultos como em crianças.

Para prevenir a pneumonia por pneumociste, são administrados antibióticos aos bebés com mais de 1 mês filhos de mulheres infectadas pelo VIH e a crianças com uma deterioração significativa do sistema imunitário. Em geral, é administrada trimetoprim-sulfametoxazol, mas algumas crianças podem ser tratadas com pentamidina ou dapsona. Com a terapia farmacológica actual, 75 % das crianças nascidas com infecção pelo VIH actualmente mantêm-se vivas aos 5 anos de idade e 50 % vivem até aos 8 anos. A idade aproximada de falecimento continua a ser os 10 anos, mas cada vez mais crianças infectadas com o VIH sobrevivem até à adolescência.

De vez em quando é administrada imunoglobulina endovenosa para incrementar a imunidade da criança contra a infecção. As vacinações sistemáticas da infância são indicadas na maioria das crianças infectadas com o VIH, quer tenham ou não sintomas de infecção pelo VIH. Em geral, as vacinas virais e bacterianas vivas não são utilizadas. No entanto, a vacina contra o sarampo-papeira-rubéola (que contém vírus vivos) é aplicada, pois o sarampo pode provocar uma doença grave ou mortal nas crianças infectadas com o VIH e até ao momento não se registou qualquer efeito adverso da vacina.

O médico pode ajudar a determinar o risco de contraírem uma doença infecciosa as crianças que precisam de um cuidado especial, de frequentar um infantário ou de ajuda de escolarização. Em geral, a transmissão de infecções, como a varicela, a uma criança infectada pelo VIH (ou a qualquer criança com um sistema imunitário deficiente) constitui um perigo maior do que a transmissão do VIH por parte dessa criança a outras. Uma criança pequena infectada pelo VIH, que tenha feridas abertas na pele ou manifeste um comportamento potencialmente perigoso, como morder, talvez não deva ir para o infantário. No entanto, em geral, não é necessário que alguém, excepto os pais, o médico e talvez o médico da escola, saiba que a criança tem uma infecção pelo VIH.

As crianças infectadas pelo VIH requerem um controlo médico rigoroso à medida que a doença piora, mas o tratamento é melhor administrado em ambientes o menos retritivos possível. Se se puder contar com uma assistência médica ao domicílio e com serviços sociais adequados, as crianças podem passar mais tempo em casa do que no hospital.

Prevenção

A prevenção depende do conhecimento dos mecanismos de contágio do VIH e da aplicação desse conhecimento. É essencial, para deter o avanço da SIDA entre os adolescentes e adultos, que conheçam a importância de se absterem das relações sexuais ou, se as tiverem, de tomarem as devidas precauções.

O meio mais eficaz para prevenir a infecção nos recém-nascidos é que as mulheres infectadas com o VIH evitem a gravidez. Alguns estudos de investigação demonstram que o parto por cesariana pode reduzir o risco do bebé de contrair uma infecção pelo VIH, mas esta não constitui uma prática normal.

Um dos progressos mais significativos na investigação do VIH é a prevenção, em muitos casos, da transmissão do vírus da mãe para o filho usando medicamentos anti-VIH. As mulheres grávidas que se sabem infectadas pelo VIH recebem zidovudina (AZT) por via oral durante o segundo e o terceiro trimestres (os últimos 6 meses) de gravidez, em combinação com zidovudina endovenosa durante as contracções e o parto. A zidovudina é administrada ao recém-nascido durante 6 semanas. Estas medidas reduziram o índice de transmissão da mãe para a criança em mais de dois terços (de 25 % para 8 %). A investigação continua para ver se outros fármacos podem reduzir ainda mais o índice de transmissão. Por conseguinte, é altamente aconselhável que todas as mulheres grávidas façam análises para despiste do VIH no início da gravidez, para que a terapia com zidovudina possa ser feita a tempo em caso de necessidade.

Embora o risco de adquirir a infecção pelo VIH através do leite da mãe seja relativamente baixo, as mães infectadas devem evitar amamentar, sobretudo naqueles países onde existem bons preparados de leite artificial para bebés e água potável ao alcance de todos. Em países onde os riscos de desnutrição ou de contrair diarreia infecciosa pela água contaminada são elevados, as vantagens de amamentar prevalecem sobre qualquer outro risco de transmissão do VIH.

Visto que é provável que não se saiba que uma criança está infectada pelo VIH, todos os colégios e infantários deverão adoptar medidas especiais para controlar os acidentes, como as hemorragias, e para limpar e desinfectar as superfícies contaminadas com sangue. Durante a limpeza, o pessoal deverá evitar o contacto da sua pele com o sangue. Deverão ser sempre utilizadas luvas e é necessário lavar as mãos depois de as tirar. As superfícies contaminadas devem ser limpas e desinfectadas com uma solução de lixívia recém-preparada que contenha uma parte de lixíviade uso doméstico e de 10 a 100 partes de água.




Sintomas precoces frequentes nas crianças pequenas infectadas por VIH
  • Crescimento limitado, perda de peso, febre prolongada ou recorrente, diarreia persistente ou ataques reiterados de diarreia, inflamação dos gânglios linfáticos, dilatação do fígado e do baço, inflamação das glândulas salivares das bochechas.
  • Infecção por fungos persistente ou recorrente (muguete) na boca ou na zona da fralda.
  • Infecções bacterianas recorrentes, como infecções no ouvido médio, pneumonia e meningite.
  • Várias infecções virais, por fungos, e parasitárias raras e oportunistas.
  • Atraso no desenvolvimento do sistema nervoso ou retrocesso do mesmo.