Infecções em pessoas com as defesas diminuídas

Tanto as barreiras como o sistema imunitário defendem o corpo contra os microrganismos que causam infecção. As barreiras físicas incluem a pele, as lágrimas, a cera dos ouvidos, o muco (por exemplo, do nariz) e o ácido do estômago. Além disso, o fluxo normal da urina elimina os microrganismos que sobem pelo tracto urinário. O sistema imunitário, que é complexo e sofisticado, é formado, entre outros componentes, por glóbulos brancos e anticorpos que identificam e eliminam os microrganismos. (Ver secção 16, capítulo 167)

Uma ampla variedade de doenças, fármacos e outros tratamentos podem causar dano às defesas naturais do corpo, provocando infecções, possivelmente causadas por microrganismos que normalmente vivem no corpo sem provocar qualquer alteração. (Ver secção 17, capítulo 171)

Factores de risco

Uma queimadura extensa corre maiores riscos de infecção porque a pele danificada permite a invasão de microrganismos prejudiciais. Da mesma forma, as pessoas submetidas a procedimentos que reduzem as suas defesas físicas correm um risco superior de infecção. Estes procedimentos incluem a inserção de um cateter no tracto urinário ou num vaso sanguíneo ou então um tubo dentro das vias respiratórias. Muitos fármacos podem deprimir o sistema imunitário, incluindo os anticancerígenos (quimioterapia), os que se utilizam para evitar a rejeição de um órgão depois de um transplante (por exemplo, azatioprina, metotrexato ou ciclosporina) e os corticosteróides (por exemplo, prednisona).

Os doentes de SIDA apresentam uma grande diminuição da sua capacidade de luta contra certas infecções, particularmente no final da doença. Estão expostos a afecções oportunistas, ou seja, infecções causadas por microrganismos que geralmente não infectam aqueles que têm sistemas imunológicos que funcionam normalmente. Também adoecem mais gravemente a partir de infecções comuns, como o herpes.

As infecções são mais prováveis e, geralmente, mais graves nas pessoas de idade avançada do que nos adultos mais novos, provavelmente porque o envelhecimento reduz a eficácia do sistema imunológico. Certas perturbações prolongadas (crónicas) que são frequentes entre os idosos, como uma doença pulmonar obstrutiva crónica, um cancro ou uma diabetes, também aumentam o risco de infecção. Além disso, eles têm mais probabilidade de se encontrarem num hospital ou num centro onde o risco de contrair uma infecção grave aumenta. Nos hospitais, o uso intenso de antibióticos permite que os microrganismos resistentes aos mesmos proliferem e, portanto, as infecções hospitalares costumam ser mais graves e difíceis de tratar do que as infecções contraídas em casa.

Os antibióticos que se administram para erradicar os microrganismos causadores de uma doença podem, na realidade, aumentar o risco de infecção no doente. Em certos casos, eles matam não só as bactérias nocivas, mas também as inofensivas que vivem normalmente sobre a pele, ou ainda as bactérias colaboradoras que vivem no intestino. Quando isso acontece, os fungos ou as bactérias resistentes aos antibióticos podem multiplicar-se e causar uma segunda infecção, chamada sobreinfecção. As sobreinfecções são mais frequentes entre as crianças e os indivíduos de idade avançada e entre as pessoas com doenças crónicas ou incapacitantes. As sobreinfecções também se podem verificar em quem recebe vários antibióticos ou então um antibiótico que elimina uma ampla variedade de microrganismos (antibióticos de largo espectro).

Prevenção e tratamento

Tomam-se precauções para proteger as pessoas com maior risco de se infectar. Lavar as mãos é o modo mais eficaz de evitar a transmissão da infecção de uma pessoa para outra. Uma pessoa susceptível também pode ser isolada num quarto privado de um hospital. Para reduzir ainda mais o risco de infecção, pede-se às visitas que usem batas limpas e máscaras, que lavem as mãos e coloquem luvas antes de entrar no quarto do doente.

Apesar da possibilidade de que os antibióticos aumentem o risco de infecção ao eliminarem algumas bactérias e permitirem que outras cresçam, eles também podem reduzir em grande medida esse risco se forem utilizados correctamente. É isto que é denominado o uso profiláctico dos antibióticos. Podem-se administrar profilacticamente antes de vários tipos de cirurgia, particularmente operações abdominais e transplantes de órgãos.

A vacinação também pode ajudar a prevenir infecções. (Ver secção 17, capítulo 172) As pessoas que correm um maior risco de contrair infecções, especialmente as de idade avançada e os doentes de SIDA, devem receber todas as vacinas necessárias para reduzir esse risco. Na imunização activa, injecta-se uma vacina ou então ingere-se por via oral, fazendo com que o organismo produza anticorpos (proteínas criadas explicitamente para eliminar agentes específicos que causam doenças). Existem vacinas para evitar reduzir a gravidade de certas afecções, como a gripe, as infecções pneumocócicas, a varicela, o herpes zóster, a hepatite A e B, o sarampo e a rubéola. Na imunização passiva, os anticorpos são injectados, pelo que proporcionam protecção imediata mas temporária. A imunização passiva é particularmente útil quando o sistema imunitário é incapaz de produzir anticorpos suficientes para proteger uma pessoa infectada ou quando se necessita de uma protecção imediata, como por exemplo depois da exposição ao vírus da hepatite.

Como as sobreinfecções e as infecções oportunistas costumam ser resistentes à maioria dos antibióticos, por vezes são difíceis de tratar e pode ser necessário um tratamento prolongado. Colhem-se amostras de sangue e de outros tecidos ou humores da pessoa infectada e enviam-se ao laboratório para análise; a identificação dos microrganismos infectantes ajuda o médico a determinar quais os medicamentos mais eficazes. Até que estes tenham sido identificados, começa-se o tratamento com antibióticos a partir de suposições. Para as infecções graves é necessário recorrer à combinação de alguns deles. Raramente um doente com uma quantidade muito baixa de glóbulos brancos recebe transfusões de células sanguíneas brancas.




O que suprime o sistema imunitário

Qualquer das seguintes situações ou terapias podem inibir o sistema imunitário da pessoa, tornando mais possível o aparecimento de uma infecção.

  • Anomalias dos glóbulos brancos, em particular dos neutrófilos ou dos linfócitos T ou B.
  • Produção anormal de anticorpos.
  • O cancro (por exemplo, a leucemia, a doença de Hodgkin e o mieloma).
  • A SIDA (infecção com o vírus da imunodeficiência humana).
  • Produção de células sanguíneas deficiente (anemia aplástica).
  • Diabetes.
  • Excessiva produção de corticosteróides (doença de Cushing).
  • Quimioterapia (medicamentos anticancerígenos).
  • Radioterapia (para o cancro).
  • Fármacos imunodepressores (para as doenças auto-imunes).
  • Corticosteróides (para a asma, as alergias e as doenças auto-imunes).