Infecções causadas por bacterias anaeróbias

As bactérias anaeróbias diferem das restantes bactérias em vários aspectos. Desenvolvem-se adequadamente em áreas do organismo que têm baixos valores de oxigénio (como o intestino) e nos tecidos que sofrem um processo de degenerescência, em particular nas feridas profundas e conspurcadas, onde outras bactérias não possam viver e as defesas do organismo não cheguem com facilidade. As bactérias anaeróbias não necessitam que haja oxigénio; na realidade, algumas delas não sobrevivem na sua presença. Costumam causar infecções que se caracterizam pelo aparecimento de acumulações de pus (abcessos). (Ver secção 17, capítulo 175)

Centenas de espécies de bactérias anaeróbias vivem normalmente e sem causar dano algum na pele e nas membranas mucosas, tais como o revestimento da boca, do intestino e da vagina; num centímetro cúbico de fezes podem existir vários milhares de milhões de bactérias. Se o ambiente normal de certas espécies de bactérias anaeróbias for alterado pela cirurgia, por um fornecimento sanguíneo deficiente ou por outro tipo de lesão, elas podem invadir os tecidos do hospedeiro, causando infecções graves ou mesmo mortais.

As bactérias anaeróbias que provocam doenças incluem os clostrídios (que vivem no pó, na terra, na vegetação e no tracto intestinal do homem e dos animais) e os peptococos e peptoestreptococos, que constituem parte da população bacteriana normal (flora) da boca, das vias respiratórias superiores e do intestino grosso. Outras bactérias anaeróbias incluem o Bacteroides fragilis, que faz parte da flora normal do intestino grosso, e a Prevotella melaninogenica e o Fusobacterium, que fazem parte da flora normal da boca.

Sintomas e diagnóstico

Os sintomas das infecções anaeróbias dependem do local onde se verifique a infecção. Essas infecções consistem em abcessos dentários, infecções do maxilar, periodontite, sinusite crónica, otite média e abcessos no cérebro, na espinal medula, nos pulmões, na cavidade abdominal, no fígado, no útero, nos órgãos genitais, na pele e nos vasos sanguíneos.

Para diagnosticar uma infecção anaeróbia, o médico em regra obtém uma amostra de pus ou do líquido corporal e envia-a para cultura no laboratório. A amostra deve ser manipulada com cuidado, dado que a sua exposição ao ar pode destruir as bactérias anaeróbias, tornando a cultura inútil.

Prevenção e tratamento

Habitualmente uma infecção grave por bactérias anaeróbias pode ser evitada se uma determinada infecção limitada a uma área específica receber o tratamento adequado antes de se propagar. A limpeza profunda das feridas, a eliminação de corpos estranhos e a instituição precoce de antibioterapia são importantes medidas de prevenção. Para evitar a infecção depois de uma cirurgia abdominal, devem usar-se antibióticos por via endovenosa antes, durante e depois dessa intervenção.

As infecções das feridas profundas costumam ser causadas por bactérias anaeróbias; as referidas infecções tratam-se principalmente drenando os abcessos e extirpando cirurgicamente o tecido morto (mediante um processo chamado desbridamento). Como se revela difícil cultivar bactérias anaeróbias no laboratório, o médico deve começar a prescrever antibióticos antes de conhecer os resultados do exame cultural. As infecções das feridas profundas contêm com frequência mais do que um tipo de bactérias, pelo que se podem administrar vários antibióticos por via endovenosa ao mesmo tempo. A penicilina é usada para as infecções causadas por uma mistura de bactérias da boca e da garganta. Como as infecções que partem do intestino incluem habitualmente o Bacteroides fragilis, que é resistente à penicilina, utilizam-se outros antibióticos.