Reacções alérgicas

As reacções alérgicas, também chamadas reacções de hipersensibilidade, são reacções do sistema imunitário em que o tecido corporal normal fica lesado. O mecanismo pelo qual o sistema imunitário defende o corpo é semelhante àquele que produz uma reacção de hipersensibilidade que pode prejudicá-lo. Como consequência, os anticorpos, os linfócitos e outras células, que são componentes protectores do sistema imunitário (Ver secção 16, capítulo 167), participam nas reacções alérgicas tanto como nas reacções às transfusões sanguíneas, na doença auto-imune e na rejeição de um órgão transplantado.

Quando as pessoas falam de uma reacção alérgica, estão a fazer referência às reacções que envolvem os anticorpos da classe imunoglobulina E (IgE). Os anticorpos IgE unem-se a células especiais como os basófilos da circulação e as células gordas dos tecidos. Quando os anticorpos IgE que estão ligados a essas células encontram antigénios, neste caso chamados alergénios, as células vêem-se obrigadas a libertar produtos químicos que lesam os tecidos circundantes. Um alergénio pode ser qualquer coisa (uma partícula de pó, o pólen duma planta, um medicamento ou um alimento) que actue como um antigénio para estimular uma resposta imune.

Por vezes utiliza-se o termo de doença atópica para descrever um grupo de afecções, frequentemente hereditárias, que são mediadas pela IgE, como a rinite alérgica e a asma alérgica. As doenças atópicas manifestam-se pela sua tendência em produzir anticorpos de IgE face a inalantes inofensivos, como o pólen, o bolor, os tegumentos animais e as partículas de pó. O eczema (dermatite atópica) é também uma doença atópica, apesar de nesta perturbação o papel dos anticorpos IgE ser menos claro. (Ver secção 18, capítulo 194) No entanto, um indivíduo com uma doença atópica não corre riscos superiores aos outros indivíduos de desenvolver anticorpos IgE face a alergénios injectados, tais como medicamentos ou venenos de insectos.

As reacções alérgicas podem ser ligeiras ou graves. A maioria delas consiste apenas no incómodo que representa o lacrimejar e o ardor nos olhos, além de alguns espirros. No extremo oposto, as reacções alérgicas podem pôr a vida em perigo se causarem uma dificuldade respiratória grave, um mau funcionamento do coração e uma baixa acentuada da tensão arterial, que pode acabar em choque. Este tipo de reacção, chamada anafilaxia, pode afectar as pessoas fracas em situações distintas, como após ingerir certos alimentos, depois de tomar determinados medicamentos ou pela picada de uma abelha.

Diagnóstico

Como cada reacção alérgica é desencadeada por um alergénio específico, o principal objectivo do diagnóstico é identificar esse alergénio. O alergénio pode ser uma planta sazonal ou o produto de uma planta, como o pólen da erva ou a ambrosia, ou uma substância como a caspa do gato, certos medicamentos ou algum alimento em particular. O alergénio pode causar uma reacção alérgica quando se deposita na pele ou quando entra num olho, é inalado, ingerido ou injectado. Com frequência o alergénio consegue ser identificado através de um cuidadoso trabalho de investigação levado a cabo quer pelo médico, quer pelo paciente.

Existem provas que podem ajudar a determinar se os sintomas estão relacionados com a alergia e a identificar o alergénio implicado. Uma amostra de sangue pode revelar muitos eosinófilos, um tipo de glóbulo branco cujo número costuma aumentar durante as reacções alérgicas. A prova cutânea RAST (teste radio-alergo-absorvente) mede as concentrações no sangue de anticorpos IgE específicos de um determinado alergénio, o qual pode ajudar a diagnosticar uma reacção alérgica da pele, uma rinite alérgica estacional ou uma asma alérgica.

As provas cutâneas são mais úteis para identificar alergénios concretos. Para efectuar estes testes injectam-se individualmente na pele da pessoa pequenas quantidades de soluções diluídas, preparadas com extractos de árvores, ervas, pólen, pó, pêlo de animais, veneno de insectos e determinados alimentos, além de certos fármacos. Se o indivíduo for alérgico a uma ou mais dessas substâncias, o local onde se tiver injectado a solução converte-se numa pápula edematosa (uma inflamação com vermelhidão à volta) num prazo de 15 a 20 minutos. A prova RAST pode ser utilizada nos casos em que não seja possível efectuar um teste cutâneo ou em que se não revele seguro executá-lo. Ambas as provas são altamente específicas e precisas, embora o teste cutâneo seja geralmente um pouco mais exacto, costume ser mais económico e permita conhecer de imediato o resultado.

Tratamento

Evitar um alergénio é melhor do que tentar tratar uma reacção alérgica. Evitar uma substância pode implicar deixar de ingerir um determinado medicamento, instalar ar condicionado com filtros, renunciar a ter um animal de companhia em casa ou não consumir certo tipo de alimentos. Por vezes um indivíduo alérgico a uma substância relacionada com um determinado trabalho vê-se obrigado a mudar de emprego. As pessoas com alergias sazonais fortes podem encarar a possibilidade de se transferir para uma região onde não exista esse alergénio.

Outras medidas consistem em reduzir a exposição a um determinado alergénio. Por exemplo, uma pessoa alérgica ao pó da casa pode eliminar todo o mobiliário, tapetes e cortinas que acumulem pó; cobrir colchões e almofadas com protecções plásticas; aspirar o pó e limpar os compartimentos com um pano húmido com bastante frequência; usar ar condicionado para reduzir a elevada humidade interior que favorece a multiplicação dos ácaros do pó e instalar filtros de ar extremamente eficientes.

Dado que alguns alergénios, em especial os transportados pelo ar, não podem ser evitados, os médicos costumam utilizar métodos para bloquear a resposta alérgica e prescrevem medicamentos para aliviar os sintomas.

Imunoterapia alergénica

Quando se não pode evitar um alergénio, a imunoterapia alergénica (injecções contra a alergia) pode fornecer uma solução alternativa. A imunoterapia consiste em injectar quantidades diminutas de alergénio sob a pele em doses gradualmente maiores até chegar a um nível de manutenção. Este tratamento estimula o organismo a produzir anticorpos bloqueadores ou neutralizantes que possam evitar uma reacção alérgica. Finalmente, o nível de anticorpos IgE, que reagem com o antigénio, também pode descer. A imunoterapia deve ser executada com cuidado, porque uma exposição demasiado antecipada a uma dose elevada de alergénio pode desencadear outra reacção alérgica.

Apesar de muitas pessoas poderem ser submetidas a uma imunoterapia alergénica e os estudos demonstrarem que ela é benéfica, a relação custo-eficácia e risco-benefício nem sempre é favorável. Algumas pessoas e certas alergias tendem a responder melhor do que outras. A imunoterapia é com mais frequência utilizada por indivíduos alérgicos ao pólen, aos ácaros do pó da casa, ao veneno dos insectos e ao pêlo animal. No caso da alergia a certos alimentos não se recomenda a imunoterapia devido ao risco de anafilaxia.

O processo atinge a sua eficácia máxima quando se fazem injecções de manutenção durante todo o ano. De início, os tratamentos são habitualmente praticados uma vez por semana; a maioria das pessoas pode prosseguir com injecções de manutenção cada 4 ou 6 semanas.

Dado que uma injecção de imunoterapia pode provocar reacções adversas, os médicos costumam insistir para que o paciente permaneça no seu consultório durante pelo menos 20 minutos após a injecção. Os espirros, a tosse, a vermelhidão, a sensação de formigueiro, o ardor, a opressão no peito, a respiração ofegante e a urticária são tudo sintomas possíveis de uma reacção alérgica. Se o indivíduo apresenta sintomas ligeiros, a medicação (geralmente anti-histamínicos, como a difenhidramina e a clorfeniramina) pode ajudar a interromper a reacção alérgica. As reacções mais graves requerem uma injecção de adrenalina.

Anti-histamínicos

Os anti-histamínicos são os fármacos mais vulgarmente utilizados para tratar as alergias (mas não devem usar-se para tratar a asma). No organismo há dois tipos de receptores de histamina: histamina 1 (H1) e histamina 2 (H2). O termo anti-histamínico costuma fazer referência aos medicamentos que bloqueiam o receptor de histamina1; a estimulação desse receptor com histamina produz lesões nos tecidos. Os bloqueadores de histamina1 não deveriam ser confundidos com os fármacos que bloqueiam o receptor de histamina2 (bloqueadores H 2), que são utilizados para tratar as úlceras pépticas e a azia.

Muitos dos efeitos desagradáveis, mas de importância menor, que uma reacção alérgica provoca (ardor nos olhos, pingo no nariz e picadas na pele) são causados pela libertação de histamina. Outros efeitos da histamina, como a falta de ar, a baixa da pressão arterial e o edema da garganta, que pode impedir a passagem do ar, são mais perigosos.

Todos os anti-histamínicos têm efeitos similares; diferem muito é nos seus indesejáveis efeitos adversos. Quer os efeitos pretendidos, quer os geralmente indesejados variam substancialmente conforme o anti-histamínico específico e a pessoa que o usa. Por exemplo, alguns anti-histamínicos têm um efeito sedativo maior do que outros, apesar de a susceptibilidade a este efeito variar de forma considerável. Em alguns casos, os efeitos geralmente considerados indesejáveis podem ser utilizados em benefício da pessoa. Por exemplo, dado que alguns anti-histamínicos têm o que se designa por efeitos colinérgicos (que secam as mucosas), podem ser empregues no alívio da rinorreia nasal causada por uma constipação.

Alguns anti-histamínicos podem ser adquiridos sem receita médica (são de venda livre); podem ser de acção breve ou prolongada e é possível combiná-los com descongestionantes, que contraem os vasos sanguíneos e ajudam a reduzir a congestão nasal. (Ver secção 2, capítulo 13) Outros anti-histamínicos necessitam de prescrição e supervisão médicas.

A maioria destes medicamentos tende a causar sonolência. De facto, dado o seu poderoso efeito sedativo, os anti-histamínicos são o ingrediente activo em muitos dos produtos de venda livre que ajudam a conciliar o sono. A maioria dos anti-histamínicos tem também fortes efeitos anticolinérgicos, que podem provocar confusão, enjoo, secura da boca, prisão de ventre, dificuldade em urinar e visão turva, em particular nos idosos. (Ver tabela da secção 2, capítulo 9) De qualquer modo, a maioria das pessoas não sofre efeitos secundários e pode utilizar medicamentos de venda livre, que custam muito menos do que os anti-histamínicos não sedativos vendidos apenas com receita. A sonolência e outros efeitos secundários podem ser minimizados começando com uma dose pequena e aumentando-a gradualmente até chegar a uma dose que consiga combater os sintomas. Actualmente existe um grupo de anti-histamínicos não sedativos que, além disso, não produz efeitos anticolinérgicos. Neste grupo estão o astemizol, a cetirizina, a loratadina e a terfenadina.

Tipos de reacções alérgicas

Os diferentes tipos de reacções alérgicas são geralmente classificados de acordo com a sua causa, a parte do corpo mais afectada e ainda alguns outros factores.

A rinite alérgica é uma reacção alérgica muito comum. Trata-se de uma alergia às partículas que o ar transporta (em regra pólen e ervas, mas por vezes bolores, pós e pêlo de animais) e que provocam espirros, ardor, rinorreia ou congestão nasal, ardor cutâneo e irritação nos olhos. A rinite alérgica pode ser estacional ou perenial (durante todo o ano).