Gastrenterite

Gastrenterite é o termo que se aplica, em geral, a um grupo de perturbações cuja causa são as infecções e o aparecimento de sintomas como perda de apetite, náuseas, vómitos, diarreia moderada a intensa, cólicas e mal-estar no abdómen. Juntamente com os líquidos corporais, perdem-se electrólitos, sobretudo o sódio e o potássio. (Ver secção 12, capítulo 137) Embora se trate dum ligeiro contratempo nos adultos saudáveis, um desequilíbrio electrolítico pode provocar uma desidratação nas pessoas muito doentes e em crianças e idosos.

Causas

As epidemias de diarreia em lactentes, crianças e adultos são geralmente provocadas por microrganismos presentes na água ou em alimentos habitualmente contaminados por fezes infectadas. As infecções também podem ser transmitidas de pessoa para pessoa, sobretudo se alguém com diarreia não lavar bem as mãos depois de evacuar. As infecções por determinado tipo de bactéria chamada Salmonella podem-se contrair, por exemplo, ao tocar em répteis, como tartarugas ou iguanas, e depois levar os dedos à boca.

Determinadas bactérias produzem toxinas que fazem com que as células da parede intestinal aumentem a secreção de água e de electrólitos. Uma destas toxinas é a responsável pela diarreia aquosa, sintoma da cólera. (Ver secção 17, capítulo 177) Outra toxina produzida por uma bactéria muito comum, a Escherichia coli (E. coli), pode provocar a diarreia do viajante e alguns surtos de diarreia nos serviços hospitalares de pediatria.

Algumas bactérias, como certas variedade de E. coli, Campylobacter, Shigella e Salmonella (incluindo o tipo que provoca a febre tifóide), invadem o revestimento mucoso intestinal. Esta bactérias danificam as células subjacentes, provocando ligeiras ulcerações que sangram e que condicionam uma perda considerável de líquido rico em proteínas, electrólitos e água. (Ver tabela da secção 17, capítulo 177)

Além das bactérias, certos vírus, como o Norwalk e o Coxsackie, provocam gastrenterite. Durante o Inverno, nas zonas de clima temperado, os rotavírus provocam a maioria dos casos de diarreia suficientemente graves para que os lactentes e crianças de 2 a 4 anos tenham de ser hospitalizados. Além do estômago e do intestino, as infecções por enterovírus e adenovírus também podem afectar os pulmões.

Certos parasitas intestinais, particularmente a Giardia lamblia, invadem ou aderem ao revestimento intestinal e causam náuseas, vómitos, diarreia e um estado de mal-estar geral. A doença resultante, chamada giardíase (Ver secção 17, capítulo 184) é mais comum em climas frios. Se a doença se tornar persistente (crónica), pode impedir que o organismo absorva nutrientes, o que gera uma perturbação chamada síndroma de má absorção. (Ver secção 9, capítulo 110) Outro parasita intestinal, denominado Cryptosporidium, provoca diarreia aquosa que por vezes é acompanhada de cólicas abdominais, náuseas e vómitos. Em pessoas saudáveis, a doença é normalmente ligeira, mas nos imunodeprimidos a infecção pode ser grave ou até mortal. Tanto a Giardia como o Cryptosporidium são basicamente adquiridos ao beber água contaminada.

A gastrenterite pode ser consequência da ingestão de toxinas químicas presentes nos mariscos, em plantas como os cogumelos e as batatas ou em alimentos contaminados. A intolerância à lactose (incapacidade para digerir e absorver o açúcar do leite) também pode provocar gastrenterite. Os sintomas, que surgem frequentemente depois de ingerir leite, são por vezes erradamente interpretados como uma alergia ao leite. A ingestão acidental de metais pesados, como o arsénico, o chumbo, o mercúrio ou o cádmio, com a água ou os alimentos pode provocar repentinamente náuseas, vómitos e diarreia. Muitos fármacos, incluindo os antibióticos, por vezes provocam cólicas abdominais e diarreia.

Sintomas

O tipo e a gravidade dos sintomas dependem do tipo e da quantidade da toxina ou do microrganismo ingeridos. Também variam de acordo com a resistência da pessoa à doença. Os sintomas começam muitas vezes de repente (por vezes de forma aparatosa) com perda de apetite, náuseas ou vómitos. Podem ocorrer ruídos intestinais audíveis, cólicas e diarreia, com ou sem presença de sangue e muco. As ansas intestinais podem-se dilatar com o gás e provocar dor. A pessoa pode ter febre, sentir-se fraca, sofrer dores musculares e revelar um cansaço extremo.

Os vómitos intensos e a diarreia podem conduzir a uma desidratação acentuada e a uma hipotensão intensa (diminuição da tensão arterial). Tanto os vómitos excessivos como a diarreia podem provocar uma grave perda de potássio, que se traduz em baixos valores sanguíneos deste electrólito (hipopotassemia). Também baixam os valores de sódio (hiponatremia), particularmente se a pessoa repuser o volume perdido bebendo apenas líquidos que contenham pouco sal (como a água e o chá). Todos estes desequilíbrios são potencialmente graves.

Diagnóstico

O diagnóstico de gastrenterite é normalmente óbvio a partir da sintomatologia, mas a sua causa não. Por vezes, outros membros da família ou colegas de trabalho estiveram recentemente com sintomas semelhantes. Outras vezes, a pessoa pode relacionar a doença com alimentos inadequadamente cozinhados, em mau estado ou contaminados, como a maionese que permaneceu muito tempo fora do frigorífico ou os mariscos crus. As viagens recentes, especialmente a certos países, podem também contribuir com dados para o diagnóstico.

Se os sintomas forem intensos ou durarem mais de 48 horas, podem ser examinadas amostras das fezes, procurando a presença de glóbulos brancos e de bactérias, vírus ou parasitas. A análise dos vómitos, dos alimentos ou do sangue também pode ajudar a identificar a causa.

Se os sintomas persistirem mais do que alguns dias, o médico pode ter de examinar o intestino grosso com um colonoscópio (tubo flexível de visualização) para descartar uma colite ulcerosa ou uma disenteria amebiana (amebíase).

Tratamento

Normalmente, o único tratamento necessário para a gastrenterite é a ingestão adequada de líquidos. Até uma pessoa que esteja a vomitar deve tomar pequenos goles de líquido para corrigir a desidratação, o que por sua vez pode ajudar os vómitos a pararem. Se estes se prolongarem ou o indivíduo se desidratar gravemente, pode ser necessário administrar os líquidos por via endovenosa. Dado que as crianças se desidratam com maior facilidade, devem ingerir líquidos com o equilíbrio apropriado de sais e de açúcares. Qualquer dos solutos de reidratação comercialmente disponíveis é satisfatório.

No entanto, os líquidos que normalmente são administrados, como as bebidas carbonatadas, o chá, as bebidas consumidas por desportistas e os sumos de frutas, não são apropriados para as crianças com diarreia. Se os vómitos forem intensos, o médico pode administrar uma injecção ou prescrever supositórios.

À medida que os sintomas melhoram, o doente pode incluir na dieta, gradualmente, comidas moles, como cereais cozinhados, bananas, arroz, compota de maçã e pão torrado. Se a modificação da dieta não interromper a diarreia depois de 12 a 24 horas e se não houver sangue nas fezes que indique uma infecção bacteriana mais importante, podem ser administrados fármacos como difenoxilato, loperamida ou subsalicilato de bismuto.

Como os antibióticos podem provocar diarreia e favorecer o crescimento de organismos resistentes aos mesmos, raramente é apropriado o seu uso, mesmo no caso de ser uma bactéria conhecida que esteja a causar a gastrenterite.
No entanto, os antibióticos podem ser usados quando os causadores são determinadas bactérias como o Campylobacter, a Shigella e o Vibrio colerae.